Em uma narrativa concebida desde o início, não para traduzir em imagens o que os versos pudessem por acaso deixar escapar, mas como um elemento imprescindível à compreensão geral do trabalho o álbum Ressignificar conta – em cores e formas – a história de um fauno e uma menina, cujos mundos tão aparentemente distintos se conectam pela força do amor. Fauno, segundo a mitologia romana, era um ser metade homem, metade bode e teria obtido de Afrodite beleza e sedução para conquistar a poetisa, além de dons oraculares. Assim, quem assiste à playlist no Youtube se depara já na primeira música, Lua Em Escorpião, com os mesmos chifres retratados por Ovídio, agora no rosto marcante de ZéVitor sob a constelação daquele signo a brilhar. Ao melhor estilo manhua, a capa de Lucas Paixão é, mais do que a simples identidade visual, uma amostra do universo lúdico do disco. Como um típico anime, cada uma das faixas contém uma sequência de ilustrações que causam no expectador a sutil sensação de movimento. A figura do cantor parece interagir, freme a freme, com sua musa inspiradora Tainá Nogueira, que, embora humana, remete à deusa Vênus, com seus longos e ondulados cabelos ruivos já tão retratados ao longo da história da arte, de Botticelli a Velásquez. Tal é a exuberância de seus traços que cada segundo do clipe Menina é inteiramente dedicado a ela. O desencontro, como não podia deixar de haver, se dá em Sem Que Nos Percamos, onde a personagem se vê impelida a fechar a janela diante da serenata de seu amado a fim de protegê-lo, o que o leva a fugir atônito para a floresta na canção seguinte, Vê Se Não Demora. Da mata fechada ao mar aberto, o casal percorre os mais oníricos cenários rumo a um amor impossível. O desfecho dessa história ocorre em Foge Comigo. .