Tripa Seca por Carlos Albuquerque: A biologia mostra que a vida é feita de complexas e delicadas teias. É feita de partes que se unem, se combinam e se mantém. A música do Tripa Seca, que é cheia de vida, é exatamente assim, um emaranhado de nós, todos eles afetivos. Formado por Marcelo Callado, Renato Martins, André Paixão (Nervoso) e Melvin Ribeiro - nomes conhecidos e respeitados do cenário independente carioca, com caminhos cruzados em bandas e artistas como Acabou La Tequila, Lafayette & Os Tremendões, Caetano Veloso e Nina Becker – o grupo reflete, com naturalidade, essas interações e combinações genéticas. E mesmo assim, em sua evolução por entre as dez faixas de seu homônimo álbum de estreia, o Tripa Seca consegue soar, ao mesmo tempo, familiar e singular. Consegue soar único, como um novo laço desse rolo todo. - A música é um grande lugar de encontros – explica Martins, voz, guitarra e composições. - Ao longo da vida, meus projetos musicais sempre foram isso. Meus melhores amigos se tornavam uma banda, ou então, ao escolher alguém para fazer música, essa escolha acabava criando laços afetivos. Vejo a música como algo ritualístico nessas relações. É a cerveja antes ou depois do ensaio, do show, é a experiência de uma viagem juntos. É essa construção coletiva que dá sentido à arte, ao mesmo tempo em que faz dela algo tão poderoso. Com a força desses laços impressa em seu DNA, o Tripa Seca nasceu em 2015. O primeiro single foi “Bipolar”, uma delícia retrô, para dançar junto no coreto da praça, que ganhou um vídeo à altura, dirigido com graciosidade por Mariana Cardin, gravado em Paquetá, onde Callado passou a infância. O resto do disco foi se erguendo aos poucos, entre trocas de mensagens e passagens pelo SuperStudio, de Nervoso, que produziu o trabalho, em parceria com Callado e Martins, que entrega: “Na mixagem, a ralação foi toda do Nervoso”. - Teve muita troca por email. E houve alguns encontros marcantes. Mas tudo começou mesmo com uma pré-produção no meu estúdio – lembra Nervoso. - Marcelo e Melvin são rápidos e entrosados, então ficou fácil dar forma às primeiras canções a partir de baixo, batera e guias de guitarra e voz. O fato de contar com o estúdio facilitou bastante o processo de gravação, ao mesmo tempo em que, por conta disso, ele ficou mais demorado e centralizado. Não que fosse meu desejo. Foi um momento em que senti que dependia de mim tocar essa produção pois todos têm suas vidas e afazeres, além da razoável distância física do estúdio, que fica na Zona Oeste do Rio. Isso fez com que nossa relação depois de um tempo ocorresse via grupo de whatsapp. Então, diria que, num período de quatro anos, fizemos um disco em seis meses (emoji de risos). Como o tempo é relativo, vale o que foi criado. O disco nasceu variado, como era de se esperar, com uma saudação à Jovem Guarda (“Cicatrizes”), um passeio pelo Caribe (“Vai que eu vou”), uma terra em transe (“Vai com Deus”), uma balada psicodélica (“My saturation”) e um desenho animado em forma de música (“Neve”). Foi outra música, porém, a lisérgica “Universo paralelo”, que acabou levando o Tripa Seca a uma incrível e inesperada conexão no espaço-tempo. - A gente queria fazer um clipe com imagens de arquivo – conta Martins. - Comecei a fuçar esses sites que disponibilizam imagens gratuitas, sem direitos autorais. Aí encontrei disponível um curta-metragem italiano, “Vortice”, de Marzio Mirabella e Massimo Stella. Na primeira vez em que assisti, fiquei chocado. A história do curta tinha tudo a ver com a letra. E a música cabia no clima das imagens. Pensei em usar uns trechos, mas bateu uma ideia estranha. Então, liguei a música no som e o vídeo no computador ao mesmo tempo. Não só tudo se encaixava, mas a diferença entre um e outro era de alguns poucos segundos. Achamos o Mirabella e mandamos a música para ele, explicando toda história, toda a coincidência. Ele adorou e até mandou uma versão do curta com uma qualidade melhor. E assim, um curta que dois caras do outro lado do mundo fizeram, em outro tempo, acabou virando o vídeo da nossa música. Parece um conto do (Jorge Luis) Borges. Ou mais um laço na vida do Tripa Seca.