
O conceito desse álbum começa pelo empréstimo do termo "lixo extraordinário", comum nas grandes cidades, e que se refere a todo o detrito que oferece perigo de contaminação química, biológica ou radioativa. No mais e no entanto, lixo é hoje a mercadoria que mais circula nas economias periféricas, representando uma simbólica, dramática, porém importante, fonte de sobrevivência para contingentes humanos que o sistema marginaliza. "Extraordinário", por sua vez, é o sentimento essencialmente pós-moderno de delírio frente a indústria cultural "esquizofrenética" que reativa seus ídolos e ícones a todo momento. Desse modo, "LIXO EXTRAORDINÁRIO" condensa, nesse sentido, idéias relativas à "indústria cultural", "mundo periférico", "economia marginal", "reciclagem", compondo o quadro contemporâneo donde o geógrafo Milton Santos afirma, há de surgir as vias de uma outra globalização, de uma nova cosmovisão, de uma cultura de consciência capaz de gerar instituições mais solidárias. O lixo é a anomalia acumulada dos atuais paradigmas. Enquanto o resíduo do colonialismo era o bagaço da cana, os povos subjugados calavam-se engasgados. Quando no pós-colonialismo esse resíduo passa a ser sucata tecnológica, o lixo (câmeras, microfones, PCs, programas pirateados, celulares, etc) servem de meio de expressão para que o mundo periférico cultive linguagem e semeie na internet. O paradigma sempre muda quando a anomalia deixa de ser excessão pra tornar-se hegemonia. O sistema traiu-se. O processo é lento (mas irrefreável). Ouça no volume máximo.