No cenário efervescente da música independente mineira, cantar a fé e os dilemas existenciais de forma poética e despretensiosa tornou-se a marca registrada da verboemcarne. Lançado originalmente em setembro de 2022 pelo selo The Bow, o álbum Vida/Eternidade consolidou o quarteto de Belo Horizonte como um dos nomes mais promissores a unir o indie rock, o folk e a riqueza harmônica da música popular brasileira. Composto por oito faixas totalmente autorais, o disco funciona como uma jornada conceitual. A proposta estética do quarteto — formado por Guilherme Januário, Michael Dias, Jordan Victor e Cris Duarte — desafia a lógica tradicional do mercado fonográfico religioso. Em vez de respostas prontas e fórmulas congregacionais, Vida/Eternidade mergulha nas incertezas e nos processos de amadurecimento humano. A costura lírica do álbum ganha força através de colaborações pontuais e certeiras. A emblemática faixa-título, "Vida/Eternidade", que conta com a participação sensível de Jorge Olliver, sintetiza o propósito do projeto ao questionar o andar sem rumo em contraste com a esperança que transborda a realidade terrena. Outro grande destaque do repertório é "Justiça, Paz, Alegria", gravada em parceria com a cantora Ana Heloysa, que amarra o som orgânico dos violões com texturas modernas e sintetizadores sutis. Faixas como "Rumo à Eternidade" e "Guerra Interna" completam a atmosfera reflexiva de um disco que, conforme os próprios integrantes definem, propõe olhar para o eterno não como uma fuga da realidade, mas como algo que pode ser vivido e experimentado no aqui e agora. O impacto de Vida/Eternidade não ficou restrito ao ano de seu lançamento. Durante todo o ano seguinte, o projeto seguiu em expansão nas plataformas digitais, impulsionado pela viralização posterior do single "João 1", que ajudou a capturar uma audiência ainda maior de ouvintes dispostos a consumir um som alternativo e sincero. Mais do que uma coleção de canções marcantes, o álbum serviu de alicerce criativo e de amadurecimento técnico para os trabalhos que o sucederam. Foi a solidez dessa identidade musical, iniciada de forma expressiva em 2022, que abriu as portas da indústria fonográfica para o grupo, culminando mais tarde no reconhecimento de sua assinatura sonora em premiações de prestígio internacional. Para quem busca uma música que transita com naturalidade entre a crueza do indie e a profundidade da poesia espiritual, Vida/Eternidade permanece como uma obra viva, atemporal e indispensável da nova safra da música mineira.