Em 2019, durante o tempo em que o mundo abrandou e nos foi imposta uma reclusão forçada, encontrei abrigo no meu velho lugar de conforto: a solitude. Foi aí, no silêncio dos dias, que me reencontrei com o que há muito me sustenta: a criação. Desliguei-me das redes sociais, dos ruídos externos, do barulho dos dias, e mergulhei nas entranhas. Tornei-me o eremita que sempre gostei de ser: voltado para dentro, para as memórias, para os fantasmas, para os milagres e para o vazio.Recolhi-me numa espécie de gruta (física e simbólica) e ali, em resguardo, revisitei cadernos antigos, compus temas novos, desenterrei esqueletos de de músicas que tinham ficado pelo caminho e embrenhei-me na produção. Com um microfone condensador emprestado pelo meu amigo, Mike Ghost, registei cada verso e cada respiração com a urgência de quem precisa de libertar o peso que carrega às costas. Foi um exercício de sobrevivência interior. Uma cura através da criação sonora.Durante estes anos, estas faixas estiveram com o Pi, amigo e engenheiro de som de longa estrada. A vida testou-o duramente neste tempo, e talvez por isso as misturas que agora me chegam estejam carregadas de verdade, densidade e silêncio. Criar é urgente, mas guardar uma obra na gaveta é negar-lhe vida, pois a arte só se cumpre quando encontra o outro.Este disco chama-se “O Eremita”. Porque foi nesse estado de isolamento consciente que ele nasceu. Porque me revejo nessa figura que se afasta do ruído do mundo para melhor o compreender. É um trabalho feito de sombra e luz. Um percurso de dentro para fora.Cada faixa é uma sintonização de uma estação da alma. Cada verso, um acto de resgate.Ouçam-se agora, anos depois, os ecos das reverberações internas.